Júlia Brandão

O Sujeito e o Objeto

O Sujeito e o Objeto foi uma intervenção desenvolvida para o Arte Passagem em São Paulo. A intervenção aconteceu do dia 06 à 20 de Junho de 2019. 

O texto foi escrito pela Iara Pimenta, o vídeo foi filmado em colaboração com o artista Rob O'Shea e as fotos foram feitas pela Fernanda Brandão. 


The Subject and the Object was an intervention developed for Arte Passagem in São Paulo. The intervention took place from 06 to 20 June 2019.

The text was written by Iara Pimenta, the video was filmed in collaboration with the artist Rob O'Shea and the photos were made by Fernanda Brandão.


Em meio a gravatas, sapatos, chapéus e outros itens expostos em vitrines de uma galeria no centro de São Paulo, encontra-se um objeto com formato e composição distintos dos outros a seu redor. Composto por recortes de couro unidos por pequenas argolas e sobrepostos a um veludo, juntos eles formam um novo objeto, uma obra-estandarte. Apesar de sua abstração, chama a atenção que as partes que o constituem: o couro, o veludo, e os brincos de argola, aludem ao universo do corpo e mais do que isso, do corpo feminino. Além disso, os recortes irregulares guardam a memória dos gestos de sua criação e o objeto como um todo traz reflexões sobre as relações entre materialidade e indivíduo, como também esclarecido pelo vídeo apresentado a seu lado.

No vídeo, a artista aparece vestindo um casaco de couro e com uma tesoura em punho. Logo os cortes se iniciam. Cada gesto leva à fragmentação da forma original transformando o casaco em retalhos e colocando também o torso da artista à vista. Esses cortes, porém, não são feitos com facilidade.  O material é resistente, e os movimentos exigem esforço, como se pode notar nas expressões do rosto da artista. A dificuldade do corte também pode ser percebida em paralelo com o ato de colocar o corpo à mostra, de forma vulnerável, ainda mais no espaço público.

O principal campo de investigação do trabalho de Júlia Brandão é o corpo e suas relações com noções de identidade e memórias culturais referentes aos espaços que ele habita. Lidando predominantemente com tecidos, a artista explora materialidades e técnicas que cruzam os universos das artes plásticas, da costura e tapeçaria. Partindo de retalhos, a artista produz colagens, esculturas, performances e também instalações nas quais se pode adentrar. A artista reúne em suas obras elementos de domínio pessoal e de cultura popular que buscam estabelecer conexões emocionais e ativar memórias coletivas. Mais recentemente, a artista começou a experimentar com vídeos e performances em que sua imagem se faz presente, refletindo de forma mais direta sobre a relação entre sua principalmente matéria-prima, o tecido, e o corpo. Uma perspectiva relevante do trabalho da artista é seu olhar sobre identidades e classificações sociais de forma a desestabilizar aquilo que é já é aceito. Fazem parte desta pesquisa obras como Corpo fragmentado (2018), em que peças recortadas de roupas diferentes da própria artista são costurados e reconstruídos, buscando uma nova unidade no espaço do canvas, e Deslocamento (2018), uma performance em que a artista recorta grandes áreas que abrem buracos e criam conexões entre tecidos sobrepostos, formando também uma nova composição tridimensional. Ainda relacionado a estas ideias está O Terno Masculino (2019), performance na qual a artista tenta, de forma insistente e sem sucesso, vestir um terno masculino, que é posteriormente decomposto e recriado em nova composição artística.

Em O Sujeito e o Objeto, a artista continua a lidar com processos de fragmentação e reconstrução, mas nesta obra, a fragmentação tem potencial transformador. Além disso, a presença do vídeo chama a atenção para a relevância e a simbologia do processo e sobre como material e corpo se entrelaçam e se transformam conjuntamente. Seu corpo se torna também o meio pelo qual a artista busca questionar como o corpo feminino é percebido, não em sentido individual, mas sim em sentido mais amplo, tornando o seu, um corpo social. Este processo questiona noções e valores que marcam a representação do feminino, que cerceiam desejos, dominam pelo medo, e oprimem pelo sentimento de culpa. A obra traz a ideia de um corpo que não se quer assediado, sensualizado, reprimido ou silenciado por outros. O Sujeito e o Objeto é uma obra sobre fragmentação, transformação, e finalmente sobre liberdade. É uma obra que busca libertar-se da identidade e valores aos quais o corpo feminino é atrelado e que ao mesmo tempo busca a liberdade para a construção de subjetividades. Nele, a obra de arte é tratada como um estandarte que guarda a memória da travessia do corpo feminino na busca de criação de um corpo novo, de um corpo livre.

O vídeo foi produzido em colaboração com Robert O'Shea, que filmou a ação. O artista trabalha com vídeo, performance, fotografia e escultura. Ele busca explorar questões como identidade queer, a política da imagem, o trabalho e o corpo. Formado em Belas Artes pelo National College of Art and Design, na Irlanda, Robert vive e trabalha entre Nova Iorque e a Irlanda.

Iara Pimenta

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